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“Vaza Jato” faz Rede Globo viver a contradição Moro-Bolsonaro

As divulgações que vêm sendo feitas pelo The Intercept Brasil, Folha de S. Paulo e Revista Veja sobre a parcialidade do ex-juiz Sérgio Moro forçam o jornalismo da Globo a montar um quebra-cabeça que não encaixa.

Foto: Ciaran McCrickard/Fórum Econômico Mundial

POR ARTHUR GADELHA

No dia 28 de agosto de 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro foi entrevistado na bancada do Jornal Nacional, principal peça jornalística da Globo. Em horário nobre, sobre o olhar de milhões de famílias brasileiras, Bolsonaro destratou a apresentadora Renata Vasconcellos ao indicar que seu salário inferior ao do âncora William Bonner indicaria um processo comum às relações trabalhistas pelo Brasil e que, segundo ele, nada efetivamente poderia ser feito pelo poder executivo.

O mal estar gerado ao vivo é apenas um dos indicativos de que a emissora, com mais de 50 anos nas costas, não tinha condições morais para apoiar aquele que já se desenhava presidente do Brasil, um homem cujas declarações homofóbicas, machistas e racistas acertaram no conservadorismo tão calado da nação. Como a Globo, que assumiu o “equívoco” de ter apoiado o Golpe de 1964 na época, hoje poderia apoiar um governo liderado por militares que vira e mexe versa sobre a volta de seu poder?

Por um lado, essa narrativa expõe que a empresa, como todas as grandes corporações da informação no Brasil, possui sua própria visão dos fatos que guiam a democracia e este ponto está muito além do que parece conivente concordar. A esquerda brasileira comemora dia sim dia não as peças cômicas do Zorra Total contra o governo ou as pérolas políticas no quadro “Isso a Globo Não Mostra”, do Fantástico, mas esquece de perceber o que isso significa quando encontra o jornalismo da casa. A aberta oposição à figura de Bolsonaro, evocado quase como um mea-culpa, é feito na mesma intensidade que levaram suas manchetes a favor do golpe parlamentar sofrido por Dilma Rousseff e que inflamaram a caça do então juiz federal Sérgio Moro ao ex-presidente Lula.

O afastamento dessa esquerda figurada pelo Partido dos Trabalhadores é um pilar essencial para a rede de comunicação porque não encaixa no projeto de um país liberal liderado por uma “direita soft”, hoje enterrada por nomes como Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckimin, etc. Vale lembrar da chamada no Plantão Globo com direito à clássica intervenção na programação, trilha alarmante e helicóptero posicionado para acompanhar a condução coercitiva de Lula a um depoimento que nunca havia recusado de prestar; ou da conversa grampeada entre Lula e Dilma encaminhada com exclusividade de Moro ao Jornal Nacional - o mesmo jornal que, anos depois, se colocaria numa cilada ao não tratar as conversas entre o ex-juiz e o procurador Deltan Dallagnol com o mesmo caráter de “denúncia”. Desenha-se o dilema imediato.

No dia 9 de junho, o site The Intercept Brasil iniciou uma série de publicações intitulada de “Vaza Jato”, denunciando a parcialidade de condução da Operação Lava-Jato focando na maneira explícita com que Sérgio Moro comandava a equipe de acusação. Por um mês, publicou sobre Moro garantindo que não houvesse uma possível delação de Eduardo Cunha, sua intervenção na defesa do Ministério Público, articulações para impedir as entrevistas de Lula durante as eleições, comemoração de Deltan da parceria com Luiz Fux, ministro do STF, e até mesmo sobre apoiadores se decepcionando com o partidarismo envolvido na ida de Moro ao governo de Bolsonaro.

Mas nada disso realmente importa para a Globo, fazendo com que sua cobertura se resuma a abordar o assunto pela obtenção dos dados, a “invasão hacker”. Na semana da primeira divulgação, um longo quadro no Fantástico explicou como as mensagens de um juiz federal poderiam ser hackeadas. Surgem especialistas de informática, sistemas digitais e programação, descartando toda e qualquer possibilidade de se discutir o conteúdo - algo que o próprio Moro defendeu a tornar público um grampo presidencial. O que faz um juiz federal num chat privado com um procurador lembrando ao fim da noite que falta uma peça no arquivo da acusação?

Embora o Zorra Total tenha rido da “queda” do ex-juiz, Sérgio Moro ainda precisa ser um herói para quem o apoiou na burla do processo democrático nas eleições de 2018. Não é uma opção, para a Globo, ser contra a prisão de Lula pela parcialidade do julgamento - quem sabe no futuro isso pareça insustentável, assim como foi para reconhecer o erro de 1964 apenas em 2013, mas por enquanto o projeto da direita ainda parece possível. Não há como cogitar a complexidade que se abarcou a Revista Veja, que entrou na parceria de divulgação com o The Intercept Brasil, mas reforçou um contraditório discurso em editorial que seu objetivo não é enfraquecer a Lava-Jato ou invalidar a prisão de Lula.

Tirando de lado quem as Organizações Globo realmente levam a sério - podendo ser incluso o ministro da economia Paulo Guedes e sua Reforma da Previdência já encaminhada - todo o restante está passível de um desdém que funciona principalmente para retirar sua marca desses movimentos mais explícitos de opressão social. As constantes declarações anti-democráticas e ultraconservadoras da família Bolsonaro e da sumida Damares Alves, por exemplo, são a própria condição pública e instantaneamente indefensável.

Diante dessa decisão da maior emissora formadora de opinião do país, só resta aguardar até onde vai aguentar o peso de Sérgio Moro - e quem dita as regras é o The Intercept Brasil, site que por meio de uma rede de fatos vai pondo à prova a funcionalidade de todas as principais instituições do país: o judiciário, legislativo, executivo e a mídia, o famoso quarto poder que se apossa de toda democracia em frangalhos.

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