Header Ads

Das minhas memórias sonoras: Quebra-Cabeça, a genialidade de Gabriel, o Pensador

Resultado de imagem para bala perdida
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

POR LEONARDO VIEIRA

Desde a minha infância alguns discos têm estado presentes na minha vida, foram álbuns que eu cresci escutando, muitos deles formaram parte da minha concepção musical hoje e moldaram minhas predileções sonoras. A maior parte destes discos foram lançados nos anos 1990, década em que  nasci. Chico César lançou o "Cus cuz clã" em 1995, Caetano o "Prenda minha" em 1998. Destes dois discos advém as minhas memórias sonoras mais antigas: À primeira vista e Sozinho.

Estas escutas naturalmente circulavam pela minha casa, meus pais costumam ouvir muitos discos, meu pai, um apaixonado por CDs, aos poucos foi construindo uma coleção encantadora de discos que durante toda a minha vida me serviu de subsídio para a descoberta de todo tipo de sonoridades imagináveis. Cresci ouvindo de Chico Buarque a Raimundos, passando por Nenhum de Nós, Mundo Livre S/A e tantos outros. Na minha infância também não faltaram discos infantis: Daniel Azulay, Bia Bedran, Vinícius de Morais (Arca de Noé), Chico Buarque (os Saltimbancos). A música sempre esteve na minha vida, não consigo rastrear um momento em que ela tenha aparecido ou que eu tenha me aproximado das canções, elas figuram nas minhas lembranças mais remotas.

Um dos discos que eu mais ouvi foi o ¨Quebra-Cabeça¨ do Gabriel, o pensador, lançado em 1997. A percepção de determinadas sutilezas, no entanto, só veio muito depois, o próprio nome do álbum remete à escolha estética do compositor de elaborar uma obra a partir de samplers de clássicos da música brasileira e da música mundial.

Lá em casa se conta que meu irmão mais velho pediu esse disco de presente pro nosso pai, só que ele considerou algumas canções pesadas demais para serem escutadas por crianças de 7, 4 e 3 anos. Eu, o mais novo, amava escutar os clássicos 2345meia78 e Cachimbo da Paz, sem sequer entender as metáforas, analogias e as propostas estéticas. Das 12 músicas do disco, nós só éramos autorizados a escutar duas, a Festa da música Tupiniquim e O Sopro da cigarra (essa, uma canção instrumental com a participação do trompetista Márcio Montarroyos). O fato é que esse censura de fato nunca vigorou e, tanto eu quanto meus irmãos, escutamos esse disco repetidas vezes, sabíamos todas as letras, cantávamos todas as canções, mas passávamos ao largo das discussões e problematizações levantadas por elas: debates em torno da legalização da maconha, da violência urbana, do desemprego, da precarização da saúde, do aborto (de maneira indireta) e diretamente sobre o abandono da juventude periférica do país, violência policial e outros temas presentes, prementes, traumáticos e dolorosos.

Conforme fui crescendo e adquirindo certa compreensão musical, esse disco ganhou um novo contorno e uma nova dimensão para mim, antes me chamavam a atenção as letras divertidas (afinal, os temas são tratados a partir de sátiras, críticas,  ironias, metáforas), e o quanto o álbum é divertido: um índio que fumava um cachimbo da paz, uma dança do desempregado, um surf numa tábua de passar (essa pra discutir a poluição), beatbox, batidas, grooves, metais, baixos marcantes, harmonias que conhecia de outras canções (Barão Vermelho, Rita Lee, Blitz).

A essa altura você deve estar se perguntando "Por que estas memórias e este disco apareceram na página de um webjornal cujo objetivo é problematizar questões atuais no Brasil e no Mundo?" Qual a relação entre o Brasil hoje e este disco?

A resposta está precisamente em uma música.

Hoje, com 24 anos, eu sou um homem negro, um artista negro, um professor e historiador negro. Antes de ontem, um homem negro, um artista negro, um inocente negro foi covardemente executado pelo exército brasileiro no Rio de Janeiro. Mais um episódio lamentável para a História do triste exército sem glória alguma. Mais um triste episódio que evidencia o extermínio das pessoas negras neste país, mais um episódio que nos mostra com nitidez o racismo presente, encrustado, enraizado, arraigado na sociedade brasileira. A pouca comoção em torno do caso destaca a complacência de uma parcela significativa das pessoas desta Nação.

Evaldo Rosa, 51 anos, teve o carro cravejado de tiros de fuzil, morreu em frente a família, morreu covardemente julgado e condenado por crime nenhum. Como posso afirmar que ele foi julgado e condenado? Porque 80 tiros não são tiros de alerta, não são disparos acidentais, muito menos revide de uma agressão. Evaldo, músico, talvez fosse capaz de agredir com algumas das coisas que mais desagradam aos fascistas: a arte, a poesia  e a música.

No entanto, voltemos: Porque o Quebra-cabeça?

A faixa 10 do disco, intitulada Bala perdida é um triste e fiel retrato da condição das pessoas negras no nosso país hoje. Embora não se possa negar que a insegurança atinge a todos, as balas perdidas costumam ter endereço certo nas periferias do Brasil, parecem ter predileção por corpos negros, por corpos inocentes, por corpos periféricos, femininos, LGBTs. Todos nós sofremos, parte de nós, no entanto, sofre muito mais. A predileção pelos corpos negros e pobres parece ter encontrado a parceria perfeita nos canos de fuzis de determinados grupos mascarados sob a efígie da lei, sob o signo da justiça, todos os dias um erro, dois ou três.

Parem de nos matar, nós queremos viver, nós vamos lutar para viver e nós não nos calaremos mais. Povo negro unido. O Fascismo, a desigualdade, a violência, a truculência policial e, sobretudo, o racismo, não irão nos deter. Povo negro livre. Povo negro vivo. Hoje, escutando essa música o meu coração doeu, entendi exatamente o que o Pensador quis dizer, mesmo conhecendo a canção há 20 anos. Abaixo eu deixo a letra da música e um link para escutá-la. Gostaria de propor esse exercício às pessoas que leram até aqui: Vejam esta letra e a escutem como se vocês fossem negros.
A tod@s @s negr@s, nós somos maiores que toda essa violência, que todo esse ódio, não abaixemos nossas cabeças jamais.

Bala perdida - Gabriel, o Pensador

Bom dia, mulher
Me beija, me abraça, me passa o café
E me deseja "Boa sorte"
Que seja o que Deus quiser
Porque eu tô indo pro trabalho com medo da morte
Nessas horas eu queria ter um carro-forte
Pra poder sair de casa de cabeça erguida
E não ser encontrado por uma bala perdida
Querida, eu sei que você me ama
Mas agora não reclama, eu tenho que ir
Não se esqueça de botar as crianças debaixo da cama na hora de dormir
Fica longe da janela e não abre essa porta, não importa o motivo
Por favor, meu amor, eu não quero encontrar você morta se eu voltar pra casa vivo
Mas se eu não voltar não precisa chorar
Porque levar uma bala perdida hoje em dia é normal
Bem mais comum do que morte natural
Nem dá mais capa de jornal
Tchau! Se eu demorar, não precisa me esperar pra jantar
E pode começar a rezar
Pra variar estamos em guerra
Pra variar...
Quem tá na chuva é pra se molhar
Quem brinca com fogo pode se queimar
Mas eu num quero ser mais um nas estatísticas
Num quero que meu corpo vire atração turística
Ensanguentado, vítima de um crime sem culpado, encaminhado prum exame de balística
Todo dia morrem dois ou três
Eu só quero saber quando vai ser a minha vez
Onde será?
No circo, na praia, no supermercado, na mesa do bar?
Ou na fila do banco?
No trem da central?
No ponto de ônibus?
Parado no sinal?
Ou assistindo TV, na segurança do lar?
Onde será que uma bala perdida vai me achar?
Se eu pudesse escolher eu morreria dormindo sem sentir muita dor
Eu sei que eu ainda sou muito novo pra morrer mas outro dia esse desejo quase se realizou:
Uma bala de fuzil se perdeu num tiroteio e veio parar no meio do meu travesseiro
Só não me acertou em cheio porque eu tava com prisão de ventre, no banheiro
Atualmente eu já me deito esperando o pior
E pra facilitar eu já durmo de paletó
Meu caixão também tá pronto atrás da porta, enrolado com a bandeira do Brasil
E quando eu sonho com o futuro eu acordo inseguro
Escutando mais um tiro de fuzil
Pra variar estamos em guerra
Pra variar...
Eu sou uma bala perdida, uma bala desgraçada
Inofensiva, feito uma criança abandonada
Eu estou sendo injustiçada
Não sou culpada
Se eu tô aqui é porque eu fui disparada
Eu não queria entrar na arma mas o dedo foi mais forte
O dedo me pôs na arma, puxou o gatilho, então porque que eu sou responsabilizada pela morte?
Eu gostaria de ser uma bala de mel
Feita com amor, embrulhada num papel
Mas vocês me fizeram pra acabar com a vida
Desde que eu nasci eu sou uma bala perdida
Eu sempre fui perdida, por natureza
Até num suicídio ou em legítima defesa
A maioria ainda nem percebeu:
Vocês tão muito mais perdidos do que eu.
Pra variar estamos em guerra
Pra variar...


Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.