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Covardia é o oposto de bravura: antes de criminoso, um covarde

O que é uma mulher corajosa pra você?


POR BEATRIZ ALMEIDA

Poderia iniciar esse texto discorrendo sobre como é difícil lidar com a violência diária nas ruas, nas mídias sociais, expondo estatísticas e números extremamente crescentes. Percebemos que a violência nem sempre vem em grandes dosagens, chocantes e desnorteantes, mas sim em pequenos venenos diários que vêm matando aos poucos, e um fato é que nós mulheres somos as principais vítimas desses atentados. Além de nos sufocar muitas vezes caladas, quando gritamos temos o som abafado, com frases que fluem da boca não apenas dos homens que nos deslegitimam, como também tendo nossos atos de coragem ocultados, julgados ou ambos.

Quero começar pela palavra ‘coragem’. Lendo devagar e trazendo toda uma carga de significado, logo pensamos no herói, no ser que se impõe e dá a cara a tapa, que não tem medo de lutar, nem de nada. Uma imagem masculina construída das epopeias, ficção dos contos de fadas, nos romances e que se estabelece na nossa sociedade. O varão valoroso sempre foi corajoso.

É louco perceber como essa característica “coragem” que adjetiva as pessoas é confusa nas relações sociais. Vejamos: tudo que citei acima não é novo, mas para você o que é uma mulher corajosa? Bom, pensam logo nas mães de família que criam sozinhas os filhos, nas mulheres fortes que batem de frente com o patriarcado, que fazem seus trabalhos apesar de todas as adversidades, retrocessos e que, mesmo sofrendo por serem quem são, continuam seus trajetos e afetos independente das pequenas violências diárias. Ok, tudo bem. Mas por que apesar disso tudo, mulheres de coragem que usam uma determinada roupa ou agem sem medo do que pensam delas tem o espectro da coragem deturpado?

Alguns fatos que ocorreram no mês de fevereiro de 2019 me levaram a pensar em como as mulheres, atualmente, mesmo com o tão falado empoderamento feminino, não têm o direito de exercer sua coragem publicamente, muito menos o direito de reclamar em situações que para os homens são normais, como marcar um encontro por um aplicativo de relacionamento.

Com isso, trago o exemplo de Elaine Caparroz, mulher, paisagista, que foi agredida violentamente por um homem num ato criminoso de feminicídio no Rio de Janeiro e que foi assunto de discussão principalmente nas redes sociais, onde diziam que o erro foi da própria vítima de levar um determinado rapaz que conheceu na internet para seu apartamento e sofreu essa tentativa de homicídio por sua ‘ingenuidade’. Assistindo o Fantástico, no domingo tivemos a infeliz oportunidade de ver a matéria onde Elaine deu sua primeira entrevista, ainda muito debilitada, ser iniciada por repórteres que afirmavam falar sobre ‘um caso de extrema covardia’. Covardia?

Elaine é uma mulher normal. Assim como ela muitas passamos por situações de violência, talvez extrema como uma agressão física ou não, mas durante a vida é inegável que sofremos, apenas por sermos mulheres, violências que não ferem apenas nossa moral, mas a nossa carne. Falar da covardia é diminuir a figura feminina, é introduzir uma peça que não encaixa no discurso judicial. Ninguém é preso por covardia.

Poderia ser qualquer uma de nós. Qual mulher, ao utilizar um aplicativo de transporte ou mesmo de relacionamento, não pensou e repensou olhando para uma tela do celular se realmente era seguro um encontro? Aceitar um convite sem saber se seremos agredidas fisicamente, como Elaine que não imaginava, já não é um ato de pura coragem? E a principal indagação é por que o agressor, criminoso, é tratado antes de tudo como um homem covarde? Será que mostrar a moral ferida de um criminoso vai passar uma imagem esteticamente correta para outros homens para que eles não nos matem?

Logo pensando sobre os ciclos profissionais onde estou inserida, a fotografia, que é um lugar de prevalência masculina, é normal ver trabalhos de mulheres sendo roubados por homens que acham realmente que não temos voz para intervir em uma situação de plágio, por exemplo. Ou que já sabem que nossa coragem da denúncia nunca é levada a sério. Esse fato faz com que a “coragem” do ato de enganar do homem seja enorme, uma coragem deturpada e misógina, mas nunca deixa de ser coragem. Falo coragem não exaltando, mas para pensarmos em como esses termos estão confusos. A coragem de um plagiador talvez seja a marca da sua cara de pau, e a coragem de uma mulher para denunciar é invertida para que na verdade ela se torne a grande vilã.

Um homem corajoso é um modelo historicamente construído e desejado, já estamos cansadas de saber que nossa sociedade é patriarcal e todos sofremos com isso. Pensar a coragem/covardia como característica base das relações dos homens com as mulheres gera uma ideia de moral inversa e rompe para o nosso lado. Um homem que fere os ‘estatutos’ socialmente estabelecidos na sociedade é um criminoso. Porém um homem criminoso que agride, mata e estupra uma mulher não é primeiramente um fora da lei, de acordo com essa ordem inversa das coisas, mas antes de tudo um grande covarde.


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