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Após seis anos, “Refugiados Snowden” encontram asilo no Canadá

Reacendendo o maior vazamento da espionagem americana, os refugiados que ajudaram a esconder Edward Snowden em Hong Kong estão à beira de ver suas vidas livres da opressão

Macaque in the trees
Vanessa Rodel (Foto: Martin Ouellet-Diotte / AFP)
POR ARTHUR GADELHA

Hong Kong, China, junho de 2013. A filipina Vanessa Rodel e sua filha Keana de 7 anos recebiam, em sua estadia secreta, um homem que precisava se esconder. Não sabiam à época, mas Edward Snowden, o americano branco dos cabelos loiros e com aparência de garoto, tornaria-se em breve o homem mais procurado do mundo. A história, hoje vista de longe, merece uma retrospectiva.

No começo do ano, a grande nação dos Estados Unidos da América, em pleno governo “progressista” de Barack Obama, não imaginava que teria todas suas relações diplomáticas ameaçadas por uma conduta anti-democrática, logo o país que tanto se orgulha de sua constituição. No dia 06 de junho de 2013, o jornal britânico The Guardian começou a publicar uma série de matérias que denunciavam a Agência Nacional de Segurança (NSA) de coletar deliberadamente dados privados de milhares de norte-americanos. Começou com a denúncia da Verizon, uma das maiores operadoras de telefonia do país, ao expôr uma autorização judicial que obrigava a empresa a entregar à NSA todos os registros de ligações, e-mails e operações de seus clientes. Em seguida, o barco desmoronou: não só os americanos eram alvos de espionagem, mas também grandes líderes da política mundial, parceiros e inimigos dos EUA. As chefes de estado Angela Merkel e Dilma Rousseff tinham seus telefones pessoais grampeados pela agência sabe se lá desde quando.

Os dados foram expostos pelo ex-agente Edward Snowden, que fugiu da sede da NSA em Miami com milhares de documentos secretos e partiu para Hong Kong, onde encontraria os jornalistas do The Guardian para que pudessem ter acesso às histórias. Na cidade chinesa, seu advogado Robert Tibbo aconselhou que se escondesse junto com os refugiados no país, pois parecia um lugar muito remoto para que tanto os EUA, quanto a China, pudessem procurar.

Ao fim de 2013, pressionado por muitas esferas políticas, Snowden deixou Hong Kong com destino ainda incerto. Foi parar na Rússia, onde conseguiu asilo do presidente Vladimir Putin, que nunca declarou ter acesso ou interesse estratégico com sua estadia. Em seguida, motivada pelo contexto e uma esperança de vida mais digna, a família filipina que ajudou Snowden tentou adquirir o mesmo asilo. Sem sucesso. Mas a história está caminhando para novas respostas, somente agora, quase seis anos depois.

Vanessa e Keana Rodel receberam asilo do Canadá. Em seu Twitter, Snowden comemorou a ação: “Obrigado a todos no Canadá e em todo o mundo que tornaram isso possível. Depois de tantos anos, a primeira das famílias que me ajudou será livre e terá futuro. Mas o trabalho não acabou - com solidariedade e compaixão, o Canadá pode salvar todos.”

Snowden se refere às outras famílias que também o ajudaram que, até o momento, seguem suas vidas num conflito de desamparo. Não são reconhecidas por Hong Kong como refugiadas oficiais, e sequer podem voltar aos seus países de origem. Vanessa e Keana fugiram 2002 de um agressor sexual que liderava o processo de tráfico humano no país; os srilankeses Supun e Nadeeka Kellapatha fugiram de ameaças de morte com os filhos apátridos Dinath e Sethumdi; Ajith Debagama Kankanalamage escapou de torturas cometidas pelo exército do Sri Lanka. Após a conquista de Vanessa e Keana, as principais receptoras de Snowden, essas cinco pessoas continuam na esperança de uma vida livre.

A política simpática à imigração é uma das linhas de Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá desde 2015. Esse ano, o então Ministro da Imigração, Refugiados e Cidadania, Ahmed Hussen, que é um refugiado da Somália, disse que o país tinha a intenção de receber mais de um milhão de imigrantes nos próximos 3 anos, enquanto o mundo fecha as portas para os conflitos - drama que vive o país debaixo, EUA, tão sedento pela punição de Snowden no Governo Obama, e agora pela construção do muro com o México, demanda de Donald Trump.

Trudeau e a atual Ministra das Relações Exteriores Chrystia Freeland, receberam pessoalmente as refugiadas da Filipinas, num gesto que acende a esperança de que a nação possa abraçar também as famílias que ficaram em Hong Kong. Da Rússia, Snowden acompanha o movimento pelo mundo e faz o que pode com os contatos políticos que deve ter um ex-agente da NSA. O caso, inclusive, abriu outra dúvida pertinente aos defensores de sua denúncia - isso seria um aceno para que o próprio Snowden deixasse a Rússia?

Seria conivente, e poderia legitimar ainda mais a missão de Snowden na defesa da liberdade civil, além de abafar todas as suspeitas de que há uma utilização governamental de seus segredos. Em 2017, surgiram as denúncias de que a Rússia havia influenciado as eleições americanas do ano anterior, que levaram à vitória surpresa do partido Republicano. Esse ano, o ex-advogado de Trump Michael Cohen declarou ter tido ligações entre a campanha de Trump com Julian Assange, fundador do WikiLeaks, para atingir a campanha democrata de Hillary Clinton. Julian foi um dos responsáveis pela transferência segura de Snowden à Rússia, e quase conseguiu asilo do ex-agente no Equador. Apesar do passado de Snowden patriota ter traços de um conservadorismo político, nada indica que apoie o atual presidente dos EUA, a quem já inferiu críticas via Twitter. Sua partida para o Canadá descartaria todas essas suspeitas, podendo até potencializar sua capacidade de intervir no assunto da espionagem globalmente. Afinal, as liberdades civis não combinam com o autoritarismo velado de Putin.

Nessa história, resta saber se Justin Trudeau está afim de abraçar tantos conflitos de uma só vez: os refugiados de Hong Kong e os milhares de segredos ainda guardados sobre o estrago dos EUA na privacidade do mundo. Tarefa difícil.


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