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A servidão de Bolsonaro a Trump expõe o caos da falsa soberania

Qual o interesse que pulsa sob o olhar de investigação que Trump lança ao Brasil ex-esquerda?

Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e dos EUA, Donald Trump, durante a entrevista coletiva na Casa Branca
Foto: Brendan Smialowski/AFP
POR ARTHUR GADELHA

"Eu acredito piamente na reeleição de Donald Trump", responde Bolsonaro a uma repórter. "Obrigado, eu concordo", soluça Trump, alcançando uma reação de humor de pequena parte da plateia de jornalistas. Bolsonaro demora pra receber a tradução no ouvido, e solta um riso de afirmação, antes de prosseguir com a fala embargada de patriotismo: "O americano vai dar esse voto com toda certeza, e cada dia que passa as pessoas mais voltadas ao socialismo, e até mesmo ao comunismo, aos poucos vão abrindo suas mentes à realidade. A fronteira do Brasil com a Venezuela foi fechada há pouco tempo". O melhor vem a seguir: "Não para que os brasileiros que apoiam o socialismo não irem para a Venezuela, mas exatamente o contrário. Para que os venezuelanos que apoiam a democracia não entrassem no Brasil."

É o mundo perfeito para dois presidentes que, a partir de “agora”, unem forças somente para um dos lados (sabemos exatamente qual), e contra o monstro socialista que tanto justificou as ditaduras latinas. Um mundo onde podemos comemorar a partilha de dois países que nunca se compreenderam de forma democrática e que sempre se bicaram por conflitos: o apoio aos militares no Golpe de 64 no contexto da Guerra Fria, os negócios com a China agora em jogo para o lado de cá, e a intervenção da Agência Nacional de Segurança (NSA) na espionagem do nosso potencial petrolífero.

Nesta semana, na tarde do dia 19 de março, Bolsonaro chegou à Casa Branca para declarar servidão aos interesses dos Estados Unidos, e quaisquer que sejam as decisões e métodos de Trump sobre a participação brasileira na geopolítica mundial, para ser mais específico. Mas por que mesmo que o presidente americano se esforçou tanto para construir um ambiente amistoso, de aparência amigável e respeitosa, diante do primeiro presidente da ultra-direita no Brasil? Qual o interesse que pulsa sob seu olhar de investigação que lança ao Brasil ex-esquerda? Até a resposta oficial nos põe em alerta: a instalação de base militar americana em Alcântara, no Maranhão, e o apoio integral do país contra o que chamam de “Ditadura Venezuelana”. É o cenário perfeito para o bilionário americano. O que mais está em jogo?

Assim como parece ser o maior interesse na Venezuela, o Brasil é um expoente na produção e exportação do Petróleo, apesar de todos os escândalos vividos pela ainda estatal Petrobrás. Em 2013, o ex-agente da NSA Edward Snowden vazou documentos da agência que viriam pôr em xeque a relação amistosa que o Governo Obama vinha estabelecendo com os então presidentes Lula e Dilma Rousseff - estava espionando, sabe se lá desde quando, o gabinete da presidência, o número pessoal de Dilma, e o escritório de reuniões na sede da Petrobrás. Na época foi um escândalo, e hoje tudo se acalmou - Bolsonaro chegou a visitar sede da CIA em Washington sem qualquer alarde - talvez considere os amigos americanos como ‘de casa’ para que possam ver e escutar o que quiserem.

Assusta os caminhos que essa aproximação pode nos levar. Antes até de ser candidato à presidência, Bolsonaro espalhava a ideia nociva de que o Brasil é “grande demais para ser só nosso”. Refere-se, claro, a Amazônia, cuja declaração merece ser lida na íntegra: "Por toda suas riquezas naturais, biodiversidade, água potável e espaços vazios, é que devemos nos aproximar de países democratas e com poderio militar de influência no mundo para poder explorar com parceria essa região".

É realmente engraçado que essa fala venha do, hoje, presidente da república, que tanto se vendeu ao eleitorado como o patriota que resgataria a soberania brasileira. E é claro que com essa história de “país democrata”, Bolsonaro se refere aos Estados Unidos da América.

Às vezes, tirando muitas das suas ideias fascistas, lembro de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitcheck, cujas pupilas também brilharam diante do arsenal bélico-comercial dos EUA, país que em suas épocas já se pintava de “polícia mundial”. Essa consciência, inclusive, faz parte do consciente coletivo do que os americanos entendem ser os Estados Unidos, e suas missões soam incompreensíveis para muitos de nós, que tanto nos parece mais urgente manter a ordem na casa antes de ir atrás de resolver o de fora.

Em troca da liberação de visto americano nas viagens para o Brasil (entregue como uma cordialidade) e a desfeita do benefício na Organização Mundial de Comércio (OMC), Trump apenas lhe acenou ideologicamente e com meias-promessas - e parece suficiente para Bolsonaro. Além disso, é claro, nenhum dos dois descarta intervenção militar na insistência da “restauração democrática” da Venezuela - uma postura desprezível, porém sem surpresas, de um presidente que aposta todas suas fichas internacionais ao cargo de capacho dos mais chulos.


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