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Precisamos falar sobre a insistência de um funk machista

A música é um grande espelho do traço cultural de um povo, fazê-la de forma coerente e responsável é algo a ser priorizado em todos os sentidos 

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POR BRUNO DOMINGOS

Que a música é uma forte marca da humanidade, isso nós temos convicção. Nos primórdios do homem no mundo, mesmo antes do neoclassicismo, período em que foi ignorado os sons não eruditas, todos os estilos e representações musicais se faziam presentes. No Brasil, por suas influências trazidas dos mais diversos locais, como África, Oriente Médio e mesmo os povos indígenas que aqui já habitavam antes do “descobrimento das terras brasileiras’’, pelos portugueses, a música teve e tem ainda sua forte marca cultural.

Podemos observar bem a grande presença da brasilidade musical nas inúmeras letras, de Tom Jobim, Caetano, Gilberto Gil, Belchior, Elis, Gonzaga e nos novos representantes, e criadores até de um novo jeito de se expressar por meio de música.

Por anos e até chegar aos dias atuais, as manifestações culturais musicais são de suma importância para o desenvolvimento de sociedades, muitas delas tornando um povo retrato do gênero, como no caso do Frevo de Recife, o Samba do Rio ou mesmo Baião na região do Nordeste. Antes tocadas somente em rádios e programas de TV, mas hoje em diversas plataformas de reprodução sonora, a música já se espalha rapidamente pelo país e pelo mundo, levando consigo sua raiz e seu contexto.
Num belo registro, temos gêneros musicais de áreas que antes não eram exploradas no país, como o Sertanejo Universitário, com letras mais atuais que transparecem um forte traço do êxodo rural para as grandes metrópoles. Observamos o novo Pop brasileiro que se mistura ao Axé, e até Reggaeton, que se acende com a nova juventude cheia de atitude e rebolado.

Em uma boa análise vemos o Funk que é característica de uma forte massa das periferias cariocas ganhar cada vez mais espaço nas grandes mídias e plataformas streamings. Esse Funk, claro, não é o mesmo vindo dos Estados Unidos da década de 1960, mesmo que um pouco espelhado na melodia dançante e com batidas marcantes.

Mas que Funk é esse? 

Sem generalizar, sem apontar para todos os diversos artistas que temos no país. A disseminação de manifestações de cunho machista, em todos os campos, ocorre de forma e rápida e certeira no Brasil. Nas classificações de músicas mais ouvidas no Brasil está o Funk, segundo os grandes reprodutores de músicas, como Spotify, Deezer, Tidal. Em vídeos no Youtube temos uma noção ampliada da voracidade do ritmo, com produções que chegam a milhões de acessos diariamente.

Sabemos que a liberdade de expressão deu poder a manifestação da opinião alheia, sem quaisquer tipos de represália seja de quem ou qual órgão for (isso na teoria), mas até onde vai a liberdade de expressão, quando essa atinge a terceiros?

O machismo existe em todos as áreas, em todas as esferas do cotidiano e isso atinge também os gênero musicais. O que assusta é a ascensão de músicas que nitidamente apresentam cunho pejorativo e injúrias, mas que mesmo assim seguem ganhando espaço na mídia, sendo amplificadas no Funk. Letras que erotizam, rebaixam e elevam o sexo feminino somente a objeto de prazer.

No “Funk proibidão’’, da década de 90, como é popularmente conhecido esse gênero musical idealizado nas comunidades do Rio de Janeiro, as letras eram de empoderamento das favelas, mas o que antes servia para mostrar o valor de um povo, hoje passa mais que um insulto a mulher.

Mesmo alcançando todo o país, o Funk chegava com mais facilidade as comunidades periféricas, tanto pelo apreço histórico ou pela identificação de aproximação e vivenciada nas comunidades. Hoje, músicas que agridem verbalmente as mulheres estão espalhadas e reproduzidas em todas as regiões do Brasil.

Principalmente no período que antecede o carnaval, muitos artistas preparam-se para lançar hits que apostam ser a música chiclete da época. O problema está na forma como a letra atinge o público.
Vários casos nos últimos anos nos fizeram refletir para tal objeto, como é o caso da música “Só surubinha de leve” interpretada por MC Diguinho. Em um pequeno trecho nos deparamos com a agressividade de quem só queria chamar a atenção, assim como é feito nas rodas de conversas de grupos que usam a imagem da mulher como estereótipo para vulgaridade, “Taca a bebida, taca a pica e abandona na rua.” é sem dúvida um caso a ser observado entoar tal letra e não se deparar com o machismo ao mesmo tempo.

Outras letras não deixam de lado a agressividade contra o gênero feminino, é o caso da música do MC Lan que traz em um trecho “Vamo ensinar inglês pras bucet... analfabetas”. Sem dúvidas ficamos chocados com tamanho machismo em meio a uma ferramenta tão disseminada como a música.

Infelizmente não para por aí, temos diversos funks que corroboram com a exposição da mulher como um pedaço de carne a ser usado pelo homem, fazendo uso de bens para pessoais para atrair e conquistar sexo, como se entende na música do MC Kekel, onde a letra diz “Quer andar de meiota? Senta na minha piroc…” - aqui meiota se lê uma motocicleta.

A reprodução de faixas que ridicularizam e atacam gêneros sexuais, cor, raça, religião ou qualquer diversidade estimula cada vez mais o retrocesso de pautas debatidas por muitos anos no nosso país. Estamos caminhando para além do retroceder político? Estamos romantizando questões sérias apenas para divertimento em uma época do ano, ou uma comemoração que é culturalmente brasileira como o carnaval?

A música é um grande espelho do traço cultural de um povo, fazê-la de forma coerente e responsável é algo a ser priorizado em todos os sentidos. No país em que cresce os casos de feminicídio, em que a cada 15 segundos uma mulher é vítima de agressão e os casos de estupro aumentam desenfreadamente, falar sobre o machismo dentro da música é alertar para a criação e a educação que queremos passar para nossos jovens e crianças.


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