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Como perde a Democracia com a morte de Ricardo Boechat

Quem é como Boechat por aí no jornalismo de massa?

Foto: Fábio Altman






POR ARTHUR GADELHA

Na metade do dia 11 de fevereiro de 2019, a imprensa brasileira noticiava a queda de um helicóptero na Rodovia Anhanguera em São Paulo, ainda sem ter ideia que Ricardo Boechat, o jornalista mais ácido e humorado das mídias, era uma das vítimas fatais. A notícia chegou e abalou, ao vivo, Sandra Annenberg e Dony De Nuccio, Luiz Datena, e toda a equipe da BandNewsFM, última casa ocupada por Boechat. Jornalistas tiveram que comunicar a morte ou de um amigo ou de um profissional inspirador, ou de ambos. Para além da comoção de uma morte no auge da vida profissional, por que entristece o cenário do jornalismo brasileiro com sua completa ausência? A resposta reflete diretamente no que entendemos por democracia – e talvez precisemos lembrar de onde vem o impulso por tudo que pensamos lutar.

Estudantes de jornalismo costumam acreditar mais no poder íntegro da comunicação, antes de chegarem ao mundo real e sentirem, muito além de “alguém que diz”, o porquê de a mídia ser convocada como um quarto poder no Estado Democrático. No primeiro semestre, enquanto aprendemos o romance da sociologia e filosofia da comunicação, ainda não temos a noção de que o jornalismo tem, e sempre teve, dono. Assis Chateaubriand, o Cidadão Kane do jornalismo brasileiro, fundador dos Diários Associados que por muito tempo formaram o maior conglomerado de veículos de comunicação do país, usou habilidades semelhantes ao que hoje vemos na Rede Globo: uma mão que alcança todo o Brasil por meio de “afiliadas” e pode garantir a transmissão da mesma informação como “opinião pública”. 

Jornais estão geralmente na mão de políticos, empresários, poderes públicos e até mesmo líderes religiosos. Em processo de instalação em São Paulo e Brasilia, a CNN Brasil tem como sócios Rubens Menin, presidente da MRV Engenharia e Douglas Tavolaro, antigo vice-presidente de jornalismo da TV Record e autor três volumes biográficos de seu “chefe” Edir Macedo, proprietário do Grupo Record e líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Podemos imaginar que tipo de notícias interessam a esse grupo e o quanto parece combinar com o Brasil de 2019. Mas o que tem a ver Boechat?

Durante as eleições presidenciais de 2018, um medo geral se instalou em ambos os lados. O campo progressista falava sobre o retorno de uma Ditadura Militar, e o campo conservador sobre livrar o Brasil de ser uma nova Venezuela, e havia pouquíssimo diálogo entre as esferas. Deu no que deu. Ouvindo todas as manhãs as análises atenciosas de Ricardo Boechat no BandNews FM, era difícil encontrar uma posição do jornalista que parecesse encaixar nos blocos que construímos. Falava sobre as irresponsabilidades do Partido dos Trabalhadores (PT) na condução da campanha, da arrogância e ausência de Bolsonaro no processo democrático, e parecia mais preocupado em olhar de cima do que estar ao chão, ao lado de quem quer que seja. 

Numa das declarações polêmicas, Boechat relativizou a condição política da morte do capoeirista Moa do Katendê, na Bahia, após a militância gritar sobre uma campanha marcada pelo ódio. Mas lamentou o ocorrido, clamou por investigações, assim como fez no último dia de vida reunindo as tragédias de 2019: Brumadinho, enchente no Rio de Janeiro e a morte precoce dos jovens no CT do Flamengo. Mais para trás, não pensou duas vezes antes de abrir fogo contra o pastor Silas Malafaia, ou defender a democracia contra o enaltecimento do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra no processo de impedimento de Dilma Rousseff, na câmara dos deputados. 

Boechat caminhou por diferentes veículos de comunicação. Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo, O Dia, O Globo, SBT, TV Globo, por último na Band, e não teve mão de empresário ou político que pudesse domá-lo, que lhe dissesse o que defender, coisa que Chateaubriand fazia abertamente com seus jornalistas. Falava tudo no ar, cobrava pessoas específicas, colocava a opinião à prova do público que, do lado de cá, via-se constantemente num estado de reflexão. Não existe isso de “concordar” com Boechat integralmente, e ele fazia questão de permanecer nessa linha. 

Essa voz tão memorável esbanjava uma integridade aberta, plena e sincera num nível tão próximo da realidade que lembrava as tantas aulas de sociologia, filosofia e ética da faculdade. Como Ciro Gomes que, num devaneio, foi cogitado pelo PT para ser vice de Lula; como se Ciro pudesse representar alguma bandeira além da dele. Boechat era apenas ele, e quem o tivesse ao lado sabia disso. Sabia também que levaria uma legião de fãs ansiosos por discursos congruentes e divergentes dos seus numa medida inigualável no cenário brasileiro que temos hoje. 

Quem é como Boechat por aí no jornalismo de massa? Reinaldo Azevedo com suas falas de mesmo tom? Paulo Henrique Amorim e suas permanentes ironias? Miriam Leitão? Dora Kramer? Quem sabe a clareza de Monica Bérgamo. Não vale citar o jornalismo da programação aberta da Globo que parece exatamente com Roberto Carlos, acomodado com os mesmos formatos. Estamos falando dos Caetanos Velosos do jornalismo que diariamente se reinventam, que dão cara a tapa a dizer o que pensam, que não encaixam no jogo do falso retrato democrático que representam seus veículos. 

Com uma coragem que agora deixa faminta a democracia brasileira, Ricardo Boechat deixou muito claro que jornalistas não são empresas. São pessoas, e “pessoas com medo não mudam o pais”.

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