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Assim nasce um comunista

Líder guerrilheiro morto há quase 50 anos voltou a ser notícia com o filme biográfico dirigido por Wagner Moura. Conheça um pouco mais sobre Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar.

Foto: Arquivo/Jornal do Brasil
POR GABRIEL AMORA

Como disse Caetano Veloso na canção Um Comunista, de 2012, Carlos Marighella foi um mulato baiano, filho de um italiano e de uma preta hauçá. Guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas, depois por Magalhães, e, por fim, pelos milicos.

Figura importante da história do país, o nome desconhecido de muita gente se apossou dos assuntos mais discutidos nas redes sociais e nas manchetes do Brasil e no Mundo. Isso se deve ao lançamento do filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, no Festival de Berlim. Morto em 1974, o guerrilheiro se tornou pauta e protagonista de discussões sobre racismo, violência, direitos humanos e ditadura.

Político, escritor e poeta, Carlos Marighella nasceu em Salvador, em 1911. Filho de Maria Rita do Nascimento, negra e descendente de escravos, e de Augusto Marighella, operário e imigrante italiano, Carlos sempre teve grande envolvimento com os estudos, o que lhe garantiu ingressar na Escola Politécnica da Bahia no curso Engenharia Civil, algo que assegurou sua desconstrução como estudante e entrada na militância política.

Mas foi somente em 1934 que enfrentou a repressão do período ditatorial conhecido como Estado Novo. Liderado por Getúlio Vargas, o Estado prendeu Marighella após divulgar um texto em que comentava de forma crítica o interventor da Bahia, Juracy Magalhães, nomeado por Vargas. A partir disto, o homem abandonou o curso de engenharia e se mudou para o Rio de Janeiro, estado onde se tornou o responsável pela imprensa e divulgação do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Dois anos depois, Marighella foi preso pela segunda vez e torturado sob as ordens de Filinto Muller, chefe da repressão encabeçada por Vargas. Ficou um ano preso. Logo após ser solto, Marighella voltou a ser preso e torturado em 1939. Dessa vez, ficou seis anos na prisão, sendo libertado em 1945, com o fim do Estado Novo.

Ficou menos de um ano como deputado federal constituinte pelo PCB baiano, visto que partido voltou à ilegalidade e seu mandato foi cassado pelas ordens do presidente Eurico Gaspar Dutra. Em seguida, viajou à China para conhecer de modo mais amplo a Revolução Comunista no país e suas funções progressistas.

Somente em 1964, já depois do golpe militar, Marighella foi baleado e preso por agentes do Departamento de Ordem Política e Social, órgão conhecido por sua repressão na ditadura. Foi libertado um ano depois por uma ação judicial. A partir dessa série de prisões e injustiças, decidiu esquecer a resistência considerada “pacífica” e aliou-se à luta armada contra o regime militar. Ao desobedecer orientações do partido, foi expulso em 1967. Bastou apenas um ano para que ele criasse o grupo armado Aliança Libertadora Nacional (ALN), que viria a se tornar a mais conhecida resistência armada à ditadura, tendo participações, inclusive, de assaltos a bancos e do polêmico e controverso sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

Não demorou muito para o guerrilheiro se tornar o principal inimigo da ditadura militar. Encabeçada por Sérgio Paranhos Fleury, Marighella sofreu uma emboscada e foi morto a tiros por agentes do Dops, em São Paulo, em 4 de novembro de 1969. Para a surpresa do guerrilheiro, a armadilha foi pensada a partir da informação de que ele tinha contato com freis dominicanos em São Paulo. Muitos desses religiosos foram detidos e forçados a marcar um encontro com Marighella. Chegando lá, foi morto na Alameda Casa Branca, nos Jardins.

Considerado importante, aparentemente, só para a direita do país, o filme dirigido por Moura recebeu mais de 29 mil avaliações negativas no site de críticas IMDb. Essas notas foram de pessoas que não assistiram ao filme. O intuito: garantir uma média baixa para a obra, prejudicando em sua estreia internacional; ou seja, as avaliações feitas no IMDb não tinham nenhuma relação com o filme. Era mais para atingir o artista que prepara o lançamento nacional de um produto que conta a história de um personagem de esquerda em 2019, um dos anos mais polarizados da história do país.

“Espero que ele seja maior que o governo Bolsonaro, e é a primeira resposta da cultura à situação atual. Marighella fala de uma pessoa que resistiu naquela época e se dirige a quem resiste agora: a comunidade LGBT, negros, moradores de favelas... Marighella morreu há 50 anos por lutar pelo que acreditava e se olharmos para o que aconteceu com Marielle, nada mudou”, destacou o diretor durante a apresentação do filme em Berlim.

Independentemente de suas inúmeras controversas, Marighella foi um homem que entendia que algo estava errado. E, ao desistir da política e das palavras, resolveu ir de encontro a violência, horror e guerrilha. Uma escolha trágica, mas que garantia que, no fim de tudo, a utopia prevalecesse. Era luta romântica.

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