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A vanguarda de Temer: porque Mourão diz o que Bolsonaro jamais diria

As contradições entre a liderança de Jair Bolsonaro e General Mourão põem o país em desconfiança concreta


Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

POR ARTHUR GADELHA


Em 2015, bem após a largada com o pedido da recontagem dos votos eleitorais por Aécio Neves, o então vice-presidente Michel Temer deixou o Brasil boquiaberto em diversas das esferas políticas ao tornar pública uma carta direcionada a Dilma Rousseff, a primeira mulher líder do Brasil que seria em seguida jogada a escanteio. O “documento” enviado em caráter pessoal foi “supreendentemente” obtido pela imprensa e divulgado de imediato, onde se intitulava “vice-decorativo”, e lamentava a falta de confiança que Dilma tinha em si e no seu partido. A carta foi divulgada dias após Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, ter acolhido o pedido de impeachment que conduziria o país a ultradireita que hoje comanda o país – talvez nem eles imaginassem esse destino, assim como a juventude nas ruas em 2013.

O modelo inaugurado na alternância política por Temer é do empurrão. Como uma figura tão próxima da vítima, assumir-se a favor de seu fim seria um tiro no pé, e por isso seu jogo foi comprado prontamente pela imprensa brasileira. Não era apoiar Cunha ou o congresso fajuto que votou contra Dilma pela família ou “pela memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra”. Era apoiar Temer, o senhor quieto e inofensivo que simbolizou por tanto tempo a aliança que Lula estabeleceu entre o Governo e o partido anacrônico, hoje chamado de MDB.

Bom, o fim dessa história todos já estamos de saco cheio. O Golpe de 2016 se instalou por uma esfera externa, aliança entre o que ainda restava do PSDB, PMDB, deputados comprados pela vinda do novo messias e um senado desesperado pelo fim. E agora, em 2019, há uma suspeita muito tentadora de que Mourão, o general do exército que dava até mais medo que Bolsonaro, esteja se aproveitando dessa história que deu muito certo e, pior, talvez disposto a melhorá-la. 


Segundo Mourão, finalidade do decreto foi cumprir promessa de campanha do presidente.

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Há uma curiosidade incrível nessa situação. Tanto os eleitores de Bolsonaro, quanto de Haddad, quanto os isentos, sabem imediatamente que essas declarações não sairiam da boca de Jair Bolsonaro em qualquer contexto. Lula, por exemplo, o Coringa que Bolsonaro criou para si, é o vilão perfeito e que não merece qualquer piedade de sua parte. Bom, o que esperar de um presidente que desejou a Dilma um “infarto ou câncer” para que saísse do Governo, e porque diabos cogitaria dar uma declaração “afetuosa” a Lula?

Também é um sonho, para Bolsonaro, estar ao lado de Donald Trump (e agora de Macri da Argentina) contra um inimigo talvez mais perfeito que Lula. Afinal, uma Venezuela destruída é o gancho perfeito para que o bilionário presidente dos EUA possa fazer o que fez com a Síria ou Iraque, a construção de uma guerra disfarçada por interesses democráticos – mas o Brasil nem tem poder bélico equivalente ao da Rússia, principal apoiadora de Nicolás Maduro, e sequer exército intimidante. Mourão, portanto, tirou o cavalo da chuva: a intervenção é impossível, e ainda citou “ajuda humanitária”.

A primeira e a última das declarações, ainda assim, são as que mais chocam. Bolsonaro foi eleito sob a confiança de salvar o Brasil da criminalidade, e a solução que tanto ludibriou um país com fome de justiça foi responder com mais violência, transferir a responsabilidade à sociedade com o armamento. Mourão diz com todas as palavras que o primeiro passo dado pelo presidente é apenas o cumprimento da campanha.

A última, que me levou a sintetizar esse pensamento, foi o posicionamento de aparência progressista sobre o aborto. O que diria Damares Alves, a ministra mais deslocada do Governo, que cogita resgatar um projeto “anti-aborto” em caso de estupro que prevê ao criminoso a sustentação financeira da criança. A ministra que sujou as mãos de tinta vermelha num protesto criminoso contra projeto de lei que exigia o atendimento do SUS a mulheres vítimas de violência sexual.

Bom, mesmo com essas contradições gigantes na sala, Mourão descarta a situação de boicote ao presidente que, após a cirurgia para retirada da bolsa de colostomia, hoje comanda o país de uma maca hospitalar por não confiar na posição de seu vice. O general fala que suas diferenças “são só de estilo”, que pode acalmar tensões. Embora essa "calmaria" possa afastar o perigo, basta lembrar que Temer sempre apostou na passividade e ano passado chegou a chamar Dilma de "senhora correta e honesta". Pode até ser que Mourão seja cortina de fumaça, como quando Damares chamou atenção de todo o Brasil ao pregar as cores de menino e menina, e também pode ser marketing de um governo sem coordenação interna.

No entanto, como disse acima, é tentador que estejamos todos receosos com o que vivemos tão recentemente. Foi por medo de 1964, da defesa da tortura e do desrespeito humano que muitos de nós lutamos contra a eleição de Bolsonaro, e é impossível hoje se recusar a pensar que a história está aí para ser repetida. Pode ser menos traumático para o país se Mourão construir a própria narrativa, isso contando com a sinuosa possibilidade de ser uma figura menos robusta e inconsequente que seu líder. Se seguir a cartilha de Temer, porém, a estrada se estende – afinal, assim como a história que retrocedemos, ele serviria de empurrão para os verdadeiros autores do processo. Nesse caso, estaríamos financiando um novo Golpe Militar no país que permaneceria usando Mourão, assim como os poderes financeiros usaram Temer e o Congresso para precarizar as relações de trabalho, perdoar as dívidas milionárias e isentá-los de intervenções sociais.

Enquanto Bolsonaro fugia da imprensa brasileira e internacional em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o presidente em exercício General Hamilton Mourão abraçava os jornalistas e agradecia a abordagem respeitosa com que o trataram nos dias mais importantes de sua carreira política – seja para se satisfazer pessoalmente, seja para dar o pontapé inicial em mais uma alternância na tão frágil e desconfiada democracia brasileira.

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