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Para a direita ameaçada, garantir direitos é sempre uma "compra de votos"

Essa “nova” direita sobre o mundo assusta ainda mais quando seus apoiadores ávidos, que vivem sob uma redoma de ameaça invisível, resolvem se interpretar parte do lado privilegiado



POR ARTHUR GADELHA

Donald Trump é mesmo o personagem caricato e inacreditável que os democratas vendiam na campanha de Hillary Clinton, em 2016. Exatamente como o Aldo, da série Black Mirror, ou até mesmo Bolsonaro, o robô-presidente que segue falas prontas sobre restaurar a família brasileira e varrer os vermelhos do Brasil, acabar com o socialismo, e essas coisas impossíveis de tragar seriamente. Pensamentos que poderiam ser daquele tio conservador que fica pedindo à esposa para lhe repor a cerveja, mas que, de repente, pertencem a líderes de potências mundiais na América.

Essa “nova” direita sobre o mundo assusta ainda mais quando seus apoiadores ávidos, que vivem sob uma redoma de ameaça invisível, resolvem se interpretar parte do lado privilegiado – isso porque, assim como feminismo, racismo, LGBTfobia e uma penca de outras pautas, a discussão de desigualdade social e os modos de repará-la são “coisas de esquerda”, de vagabundos acomodados que se desfazem da meritocracia. Pelos EUA, especificamente, uma situação me pareceu lembrar muito do que ouvimos por aqui.

Começamos pela tragicomédia: o Governo Federal de Trump está paralisado há 35 dias por que o Senado não aprova a inserção de US$ 5,7 bilhões no orçamento para a construção de um muro na fronteira dos EUA com o México. E no meio dessa briga contra a imigração, surge uma Nova York de aparência progressista que (apenas) lembra os desencontros de “forças menores” daqui com o Governo.

O democrata Bill de Blasio, prefeito de Nova York, anunciou há algumas semanas duas medidas de contramão ao pensamento federal. O intitulado “NYC Care” é um programa de saúde pública que visa atender os nova-iorquinos sem que renda ou situação migratória interfira no acesso. Se Trump não quer imigrantes no país, imagina assistidos por um programa de saúde público – pauta que os EUA sempre evitou discutir, apesar das tentativas bem-sucedidas de Obama a partir de 2010. Saúde ainda é coisa privada por aquelas terras adoradas. Na caixa de comentários da matéria que lia sobre o plano de Bill, brasileiros estavam indignados com o que chamaram de esquerda. Vale a reprodução de alguns:

Isso aí é compra de votos disfarçada, o bom e velho populismo dos democratas para ganhar votos no futuro

Um esquerdista fazendo caridade com o dinheiro alheio

Ok, investiu 100 milhoes de dolares nisso, e o retorno e beneficio vai ser qual ????

Se continuar a imigração desenfreada e ilegal, em 10 anos os Estados Unidos serão mais pobres que a Bolivia kkk

Para entender a aplicação do projeto e se não passa de “medidas de largada”, só um acompanhamento com nova-iorquinos poderá dizer. Mas essa percepção de julgar a busca por direitos me levou imediatamente ao Brasil que vai ressurgindo a partir de 2003. Os programas sociais implementados pelos governos petistas no Brasil sempre foram alvos de desconfiança e desleixo pela direita brasileira, como Bolsa Família, Fome Zero, ProUni, Fies, Enem e Ciências sem Fronteiras, por exemplo. 

A direita (e hoje também a extrema) que acusa os governos de assistencialismo populista é a mesma que nunca se debruçou sobre uma alternativa para garantir o que reivindicavam. Para essa classe, a redução da pobreza de 24,3% para 8,4%; da pobreza extrema de 14% para 3,5% e da desnutrição de 10,7% para 5% são apenas “compras de votos”.

Parece-me exatamente como Jair Bolsonaro que por 27 anos frequentou o congresso federal pelo Rio esbanjando a violência como solução para a criminalidade que só cresceu exponencialmente no estado. É a crítica sem solução, facilmente jogada ao campo da aversão, como um irmão birrento que briga sem a intenção de realmente ser levado à sério, ou como o meme da atendente da Riachuelo que não sabe como proceder quando um cliente finalmente aceita fazer o cartão da loja.

É duro pensar isso, mas mesmo na nebulosidade, essa direita parecia existir apenas no espaço da acusação. Já a “nova” direita extrema, ou “ultra” como chama o jornal El País, faz questão de criminalizar, de estabelecer um julgamento social sem perdão, uma censura muito mais danosa às possibilidades de democracia. Gente que sempre teve o que comer dizendo que Lula alimentou os pobres para comprar votos – um perfil a se investigar mais a fundo nesse nosso “novo mundo” de 2019.

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