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Filho do Mourão expõe veia do "nepotismo invisível" de Bolsonaro

Muito bom para a preservação do poder, como comprovado ao longo do curso da história humana. Muito ruim para a construção de uma sociedade verdadeiramente meritocrática, livre da chaga da corrupção que nos assola


POR DJACIR CORDEIRO

Nas primeiras semanas da nova administração, em meio a inúmeros desencontros, avanços e recuos, certamente esperados mas surpreendentes mesmo para um governo novo, ganhou destaque na cobertura da imprensa nacional a notícia que Antônio Hamilton Rossell Mourão, funcionário público do Banco do Brasil há duas décadas, havia sido promovido para um cargo de assessor especial da presidência do Banco meros oito dias após a posse de seu pai na vice-presidência da República. O ato resultou em um salário triplicado para R$36,3 mil reais, além de participação no Programa de Alternativas para Executivos em Transição (Paet), que, conforme dito pelo site Antagonista, dará direito a um bônus milionário em uma eventual saída após dois anos no cargo.

Foi perceptível que a nomeação, mesmo entre os adeptos mais fervorosos do presidente Bolsonaro, não foi recebida com entusiasmo. Há quem diga, entre os blogueiros políticos, que a promoção era articulada desde o período posterior ao primeiro turno das eleições, quando foi percebido que Jair Messias Bolsonaro seria o próximo presidente do Brasil.

Em especial, causou espanto aos bolsonaristas que essa nomeação tenha sido justamente de um filho de Hamilton Mourão, que ganhou notoriedade ao longo do governo de Dilma Rousseff pelo tamanho de sua boca e a sua disposição para elogiar o autoritarismo tacanho típico dos militares latino-americanos, na ausência de quaisquer méritos evidentes em sua longa carreira nas Forças Armadas.

Em termos jurídicos, conforme a jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal, a promoção do filho do General Mourão não se qualificará como nepotismo, em virtude de ter ocorrido em instituição fora da influência direta da vice-presidência. Mesmo assim, trata-se de uso da expectativa de poder criada pela proximidade de uma vitória eleitoral para se angariar dividendos para membros do circulo próximo do vice-presidente. Não é necessário grandes esforços mentais para admitir que a promoção anunciada na segunda semana do governo não são derivadas do acaso, e sim resultantes de uma ação deliberada, presumivelmente para gerar dividendos políticos futuros.

Não é o intento deste texto afirmar que o filho do vice-presidente não possua condições para exercer o cargo vencido, este não é o espaço para contestar a competência de um funcionário de longa data que, como destacado pela imprensa, foi promovido várias vezes ao longo de sua carreira. Trata-se de contestar a utilização dos mecanismos de influência política para favorecer parentes precisamente por um representante proeminente e vocal da nova administração, que possuiu como grande bandeira de campanha a luta contra a corrupção.

As práticas apontadas, naturalmente, aconteceram e acontecerão com demasiada frequência na história das sociedades. É praticamente instintivo para o líder político buscar benefícios para aqueles que o cercam, sendo isso uma das regras de bom senso para a preservação do poder político, apontada por Machiavelli como o objetivo máximo de um Príncipe. Unido ao instinto natural do político, está o instinto natural de um pai, que em condições normais buscará a melhor situação possível para o seu filho. Completando este quadro, está o instinto da cúpula da instituição bancária, que buscará entrar nas boas graças de uma nova e imprevisível administração.

Esta confluência de vontades, mesmo que repita tendências naturais da política e da existência do homem em sociedade, resulta de forma inequívoca na deturpação dos ideais aparentemente meritocráticos, diretamente antagônico com a percepção popular de corrupção nos governos anteriores, que explicam em parte a eleição de Bolsonaro. Incoerência gravíssima, ainda mais em um início de mandato, durante os cruciais 100 primeiros dias, imortalizados na presidência do americano Franklin Delano Roosevelt como o período onde o presidente possuirá as melhores condições para ditar o tom de seu mandato. 

Dito isso, não causará surpresa para o observador atento a continuação de tais práticas pela nova administração, ainda mais em uma capitaneada por um ex-deputado que efetivamente criou uma dinastia política, com três de seus filhos exercendo cargos eletivos em dois estados, além de diversos políticos com ligações próximas que devem a sua eleição à popularidade do patriarca, na melhor tradição da política brasileira, que contém dezenas de exemplos parecidos desde a independência.

O início do novo governo não traz a percepção que existirá a mudança prometida e ansiada pelos dezenas de milhões de eleitores que depositaram suas esperanças em Bolsonaro, a despeito de suas conhecidas falhas de caráter, histórico pouco impressionante na Câmara de Deputados e discurso apontado como típico de extrema-direita. Se tanto, como demonstrado pela reação do presidente em relação a controvérsias similares nesses primeiros dias, a tônica de seu governo será ditada pelo favoritismo nítido para a parentada e os aliados próximos, em especial quando alinhados com o discurso ideológico ultrapassado pregado pela situação.

Muito bom para a preservação do poder, como comprovado ao longo do curso da história humana. Muito ruim para a construção de uma sociedade verdadeiramente meritocrática, livre da chaga da corrupção que nos assola.

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