Header Ads

A lembrança de um lar afundada na lama: mais uma vez

Uma fotografia do desastre que vem sendo construída há 3 anos

Foto: Viomundo

POR BEATRIZ ALMEIDA

Um lugar importante para conhecermos melhor uma pessoa é a sua casa. Berço seguro para formação de percurso de memórias individuais e coletivas, lugar de tradições, símbolos, desejos e afetos, assim como também, lugar de aprendizados, formas de entender o meio a cada dia. Núcleos como a família, vizinhos, animais de estimação, relações de negócios, tudo são construções de ser e de permanecer em um lugar onde chama-se seu lar.

Cada prego, cada rachadura na parede ou mesmo uma torneira que sempre estoura com a pressão da água faz do nosso lar único e a maior potência na nossa formação de lembranças. É neste lugar onde guardaram fotografias de família, os dentes de leite dos filhos ou um vestido que não cabe mais. Essas memórias são um passado também presente e merecedoras de respeito e cuidado.

Imagine então que em nome do lucro, mais uma vez, pelo mesmo culpado, uma onda de lama desfaz todas suas redes de memória construída por anos. Uma avalanche de rejeito que atingiu e, se não lhe mata, destrói tudo que você um dia conheceu. É fato que o prejuízo maior não é financeiro apenas, mas psicológico efetivado pela retirada abrupta de várias narrativas de vida.

Dia 25 de janeiro, três anos após o crime ambiental internacionalmente conhecido, ocorrido na cidade de Mariana (MG) causada pela Mineradora Vale, outra barragem não aguentou e se desfez na cidade de Brumadinho também em Minas Gerais, deixando pessoas desaparecidas, lares totalmente destruídos, solo irreconhecível e as memórias afundadas.

Errar é humano somente quando não interferindo na existência do próximo. Após o choque, conseguimos perceber que hoje os brasileiros estão recobertos da ‘lama’. De uma onda que levou memórias de tantas famílias e deixou para nós a triste imagem que vemos estampadas nas mídias em geral. Uma fotografia do desastre que vem sendo construída há 3 anos.

A onda que vem com toda força apagando a memória de toda uma trajetória de vida e o questionamento é: que medidas serão tomadas agora com tantos retrocessos no Brasil quando o assunto é preservação ambiental? A que custo vale o lucro da Mineradora Vale e quantas barragens precisarão estourar? E principalmente: por que deixou acontecer mais uma vez? 

Toda força e solidariedade a todos que estão agora sem seu lar por culpa do descaso. Não esqueceremos.

3 comentários:

  1. Poxa Bia, não tinha visto por essa perspectiva da memória e do espaço no entorno, foquei nas vítimas e seu texto me fez perceber muito mais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente quando nos deparamos com uma situação com esse grau de gravidade pensamos de imediato na preservação da forma mais 'básica' da vida, por assim dizer, é respirar e estar vivo. Porém, de fato sabemos que viver tem suas complexidades que vai além do corpo. A vida é vivência.
      É um prazer poder escrever e compartilhar essas discussões. Agradecemos demais, Érica.

      Excluir
  2. Um olhar muito sensível e empatico, amiga. Que nos motiva à uma nova reflexão. em relação a todos os seres que abitavam ali, quantos ninhos que foram cuidadosamente construidos pelo artesanato tão sofisticado dos passarinhos, o aconchego de uma toca debaixo da terra que da mesma forma foi invadida por essa avalanche de descaso e mesquinhez. Sem dúvida, todo ser precisa de um aconchego, de ninho e de toca e, sem eles, somente o afeto e a empatia pelo outro pode suprir tamanho vazio. Obrigado por esse texto, meu bem, ele é um exemplo disso.

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.